A Menina do Farol
Ela vendia balas no farol. Um dia se aproximou do meu carro e ofereceu suas guloseimas. Eu não comprei, por algum motivo qualquer, do qual não me lembro. Mesmo assim, ela permaneceu ali, na minha janela, falando sobre os preços dos portas-jóias que um rapaz vendia - também - ali no farol. Comentou, sem pressa, que ele havia vendido um porta-joías quebrado para uma moça. Um absurdo!
O farol abriu e eu me despedi dela. Segui meu caminho, contagiada pela sua simpatia e carisma. Ela tinha um sorriso lindo, que combinava com seu rosto branquinho com sardinhas.
Eu passo com freqüência no farol onde ela trabalhava e na próxima vez em que a encontrei, comprei suas balas. Ela me aconselhou carinhosamente sobre qual seria o melhor sabor a escolher.
Teve o dia que ela contou que estudava, que tirava boas notas na escola e onde morava, num bairro da periferia. Eu lhe dei um dinheiro, sem querer balas em troca.
Num outro, eu lhe ofereci uma carteira minha com motivos infantis, já usada. Ela aceitou com brilho nos olhos. Eu tenho certeza de que nunca vi, em toda a minha vida, alguém tão feliz com um presente.
Radiante, ela se afastou pra ver os detalhes da carteira e em seguida veio me devolver um papel que eu havia esquecido dentro.
Naquele dia eu fui chorando até chegar na festa para onde eu estava indo. Talvez eu não chorei apenas por que estava emocionada com a atitude dela, talvez eu chorei o choro que já me estava engasgado, o choro que eu não tive coragem de chorar no momento certo.
Em uma noite de frio a avistei de longe, saltitante, com seus cabelos loiros, compridos, de cachos soltos balançando no ar. Aproximei o carro, lhe dei um brinquedo e um pacote de bolachas. Ela é naturalmente alegre e, mais uma vez, sua alegria só aumentou com os presentes.
Nunca mais a encontrei. Ela não sabia, mas toda vez que eu a via, sentia uma enorme vergonha das minhas reclamações, das minhas tristezas, das minhas encanações.

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