Passárgada Square

terça-feira, janeiro 16, 2007

Que porra é essa???

Tudo começa na infância, com seus pais dizendo o que é certo e errado. Você apronta alguma e lá está ele, o olhar de punição, aquele olhar feio, que só de lembrar faz você titubear antes de se aventurar numa nova traquinagem.
Depois você entra na escola e quer ser bem aceito pelas outras crianças. Surgem os primeiros desejos de se socializar, fazer amigos, de ser querido. Pena que o olhar infantil, o do coleguinha, muitas vezes é cruel. Ele aponta seu defeito sem dó nem piedade.
Nesta época também entra a figura da professora, que de certa forma, continua o trabalho iniciado pelos pais, em casa. Ela dita o que é certo e errado, impõe limites, aprova e reprova. Por diversas vezes você se sente dividido entre bagunçar com a turma, ser idolatrado pela garotada por suas peripécias, chamar atenção da loirinha de rabo de cavalo alto e prestar atenção na aula, fazer todos os deveres, ser elogiado pela professora e seus pais.
Chega a adolescência. A fase em que, talvez, o olhar alheio tenha mais importancia, seja mais decisivo em sua vida. Você quer pertencer a um grupo, ser popular, requisitado. Faz de tudo para chamar atenção e de tudo e mais um pouco pra ocultar-se, quando necessário. Levar um não de uma paquera pode parecer mortal, o pai buzinar na porta do colégio faz você querer mudar de escola, nunca mais aparecer na aula.
Quando pensa que virou adulto, lá continua você, sob o olhar alheio. Se sua mãe não concorda com uma decisão tomada, colocá-la em prática não terá a mesma graça. Quer ir pra praia e a namorada para o campo, acaba indo para o campo para agradá-la. O chefe critica seu desempenho e lá se vai o seu bom humor. Continua querendo ser bem aceito no seu grupo – a única coisa que melhora é que seu grupo já está definido – e as vezes faz coisas mais bizarras do que na adolescência em nome do coletivo. Como engolir sapos, fingir que não perecebe más intesões, tudo pra não gerar um mal estar grupal.
E a vida toda você vai viver subordinado ao olhar do outro. Vai sempre querer ser gostado e aprovado por todos. Visto o mal que te causa quando descobre que alguém não vai com a sua cara.
Quem falou que todo mundo tem que gostar de você? Quem falou que você tem que ter aprovação unânime. Você gosta de todas as cores, de todas as comidas, de todas as pessoas? Tem gente que adora quiabo, outros odeiam. Não se define se quiabo é bom ou ruim, assim como você não é bonzinho ou malzinho se alguém faz ou não gostar de você.
O mundo todo não é obrigado a te amar e isso não te faz melhor ou pior. Muita gente não gosta de você, sem você ter causado dano algum a elas. Porque gostar é assim, é química, é santo que bate, é subjetivo, no mais amplo sentido que é gostar de alguém. Eu sei, eu sei, vai explicar isso pro complexo de rejeição?
A verdade é que o olhar do outro sempre vai exercer fascínio e influência sobre o ser humano. Deve ser porque sozinhos não conseguimos nos conhecer por inteiro, nunca obtemos o almejado auto-conhecimento em sua plenitude. Então, tentamos captar nossa imagem através do ollhar do outro. E ninguém quer ficar mal na foto.
É antagônico perceber que disperdiçamos boa parcela da vida e de nossa energia tentando agradar a terceiros, para receber de volta o olhar de aprovação. Quando, de modo simplista, cada um deveria viver para satisfazer seus próprios desejos e aspirações.
É preciso respeitar o olhar do outro. É preciso (com) viver com o olhar alheio. Mas jamais perder os seus olhos.