Carnaval

Hoje eu sou Colombina e você Pierrô. Eu sou porta-bandeira e você mestre-sala. Hoje entro no seu salão colorido, arremessanado serpentinas ao alto, como estrelas-cadentes a riscar o céu. Jogo confete em mim, pra crer que é chuva escorrendo sobre o meu corpo.
Sorrio pra você, com o rosto carregado de maquiagem cintilante e também flerto com o anjo de asa quebrada. Chego mascarada e depois coloco-me nua, só pra exibir meu avesso e minha falsa beleza.
Você me levanta, me rodopia, me tira do chão e me leva pra correr atrás do bloco, na rua de pedras. Vejo fantasias e loucura insaciada. Quero ouvir a bateria para poder requebrar.
Você esfrega seu corpo no meu e no de tantas outras mulheres. Eu rebolo e lanço olhares carregados de malícia. Quero que a ilusão se sobreponha à realidade, assim, os beijos ardentes e ocos ganham mais sentido.
Depois seguimos para o sambódromo, onde seios e bíceps e coxas e nádegas e braços e pernas estão ávidos por narcísico reconhecimento. Ouço o samba-enredo narrar retalhos da nossa história, representada em carros alegóricos imponentes. Mas preferimos crer na magia do próximo desfile.
Ainda dá tempo de retocar a maquiagem, tirar o salto que incomoda, voltar ao salão e aproveitar os últimos instantes do baile. Ainda existem alguns resquícios de hoje. E hoje podemos ser quem a gente quiser. Eu só não posso ser eu, nem você ser você. Nosso único compromisso é com a diversão.
Amanhã, quando for quarta-feira de cinzas e cessar o burburinho, quando as luzes esmaecerem e o gari estiver varrendo a sensualidade despejada nas ruas; eu passo pra recolher todas as tristezas fantasiadas de alegria e todas as lágrimas contidas nos risos.

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