Guarda!
Ele perguntou pra ela "O que eu faço com o que sinto por você?". "Guarda", ela respondeu com veemência."Guarda" porque o que está guardado não fica aparente aos olhos, e o que não se vê é mais difícil de lembrar.
Estando guardado não a faria tropeçar quando andasse distraída. Incomodaria menos.
"Guarda" como quem guarda no fundo da gaveta da cômoda, porque, para ela, seria tão cômodo. Não perderia a proprieadade daquilo, só procuraria quando quisesse e só acharia quando procurasse.
Ela desejava que ele guardasse porque a posição do que é guardado é sempre submissa.Continuaria ali, à sua disposição, mesmo que ela passasse anos sem lembrar de sua existência.
Assim, ela poderia ter a ilusão de que usaria logo mais ao sair do banho ou nunca mais, se assim quisesse.
"Guarda" pois a diferença entre guardar e esconder é tão sutil. Quando não se sabe o que fazer com determinada coisa, guarda-se. Guarda-se também o que tem pena de jogar fora. Guarda-se o que não é mais útil por posse. Tinha tanto egoísmo naquele simples "guarda".
"Guarda" embrulhado em papel de seda, feito aqueles que embrulham roupa em loja fina. Guarda com carinho, cuida, revisita, cultiva, vê se tá tudo bem. Também era sádico o seu discurso.
"Guarda" porque o que tá guardado perece menos à ação do tempo.
"Guarda" pois quem guarda tem o compromisso de assistir, de tomar conta. E, através disso, eles teriam um elo.
Continham tantos significados aquela única palavra, que ele está até agora tentando decifrar o que ela quiz dizer.
Ela foi intencionalmente leviana.

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