Tem dias que sinto saudade do cheiro da minha avó. E fico achando que se apenas pudesse voltar a sentí-lo, seria confortante e preencheria grande parte da falta que ela faz.
Tem outros dias que eu sinto saudade de toda a grandeza que envolve a pessoa dela. Talvez a maior saudade seja da sua força, que às vezes reconheço em mim e a agradeço por tê-la me ensinado. Mesmo que ela nunca tenha me pego pela mão para ensinar o que era força, pude aprender na prática, vivenciando e absorvendo o que era aquilo, em nossos vinte e poucos anos de convivência.
A vovó também sabia preencher e alegrar um ambiente como ninguém. Entrava sorrindo em todos os lugares, puxava assunto com quem aparecesse na frante. Não era raro eu ir em alguma loja aqui pelo bairro e alguém me falar "Ah, você é neta da dona Dora? Nós adoramos conversar com ela quando ela vem aqui. Muito simpática sua vó..."
Em casa, estava sempre tagarelando. Mesmo assim, quando a família travava uma discução estúpida, ela reclamava que falávamos demais e a deixávamos zonza. Hoje em dia, quando situação semelhante se repete, me flagro fazendo a mesma reclamação. Mas eu não gostaria de ter que dizer aquilo, queria ela estivesse ali naquele papel, como sempre foi.
Aliás, não é apenas nessa circunstancia que eu gostaria de vê-la conosco novamante. É sempre, mesmo nas coisas banais como em seu apreço por orquídeas, com sua mania de limpeza ou o seu jeito catastrófico de fazer baliza.
A diferença é que em alguns momentos sua ausência é mais latente. Como no dia das mães, quando percebo que minha mãe adoraria que a mãe dela estivesse viva, para ela poder comemorar a data por completo. "A vovó é que ia gostar de estar aqui..."
Sua imensurável compreensão também fazem falta. Eu poderia cometer os maiores erros e apenas com um olhar complacente ela me absorvia de toda a culpa.
Imensurável também era seu amor. Ela transbordava amor, generosidade, proteção, cuidado, carinho e orgulho. Orgulho de encher a boca para proferir duas palavras que para ela eram sagradas, "minha neta".
O colégio onde estudei organizava um concurso anual de redção e em alguns anos eu ganhei medalha. Minha vó fazia questão de guardá-las com ela, no mesmo lugar onde guardava suas jóias. De vez em quando, ia lá rever e manuseava aquela corrente de lata com um banho vagabundo dourado com mais carinho e cuidado do que ao mexer em seu colar de esmeraldas.
Quando eu era criança, tinha mania de reclamar para ela quando minha mãe fazia algo que eu julgava injusto. Prontamente ela respondia "Deixa que vou dar educação nela!". E fingia dar uns tapinhas na minha mãe.
Lembro da minha decepção quando amadureci um pouco e notei que aquilo era apenas um teatrinho para me agradar. Delicioso foi quando, já crescida, adulta, a via me apoiando, quando correto, em minhas brigas com minha mãe.
Dona Maria Dora é meu maior explemplo em múltiplos sentidos: por ser a imigrante que tinha nada e conseguiu com seu trabalho alcançar uma boa condição de vida, por ter enfrententado minha bisavó pra se casar com meu avô, por ser a primeira mulher do nosso bairro a tirar carteira de motorista.
Sem ela, fico procurando por exemplos. Até que me dou conta de que já estou bem crescida e não praciso mais disso, sou capaz de ser independente e sei construir o meu caminho.
Ela deixou uma vala gigantesca. Fazem mais de três anos que ela morreu e nós ainda tentamos, meio desajeitados, preencher essa lacuna. E sabemos que nem em três décadas conseguiremos fazê-lo.
O que conforta é achar que ela prossegue entre nós, seja espiritualmente ou por meio de tudo o que ela nos ensinou e continuamos fazendo.
O que conforta é saber que os céus, ou qualquer que seja o lugar para onde vamos, está mais iluminado com sua presença. Certeza absolutíssima que ela chegou por lá, toda risonha, puxando conversa com todo mundo...
Tem outros dias que eu sinto saudade de toda a grandeza que envolve a pessoa dela. Talvez a maior saudade seja da sua força, que às vezes reconheço em mim e a agradeço por tê-la me ensinado. Mesmo que ela nunca tenha me pego pela mão para ensinar o que era força, pude aprender na prática, vivenciando e absorvendo o que era aquilo, em nossos vinte e poucos anos de convivência.
A vovó também sabia preencher e alegrar um ambiente como ninguém. Entrava sorrindo em todos os lugares, puxava assunto com quem aparecesse na frante. Não era raro eu ir em alguma loja aqui pelo bairro e alguém me falar "Ah, você é neta da dona Dora? Nós adoramos conversar com ela quando ela vem aqui. Muito simpática sua vó..."
Em casa, estava sempre tagarelando. Mesmo assim, quando a família travava uma discução estúpida, ela reclamava que falávamos demais e a deixávamos zonza. Hoje em dia, quando situação semelhante se repete, me flagro fazendo a mesma reclamação. Mas eu não gostaria de ter que dizer aquilo, queria ela estivesse ali naquele papel, como sempre foi.
Aliás, não é apenas nessa circunstancia que eu gostaria de vê-la conosco novamante. É sempre, mesmo nas coisas banais como em seu apreço por orquídeas, com sua mania de limpeza ou o seu jeito catastrófico de fazer baliza.
A diferença é que em alguns momentos sua ausência é mais latente. Como no dia das mães, quando percebo que minha mãe adoraria que a mãe dela estivesse viva, para ela poder comemorar a data por completo. "A vovó é que ia gostar de estar aqui..."
Sua imensurável compreensão também fazem falta. Eu poderia cometer os maiores erros e apenas com um olhar complacente ela me absorvia de toda a culpa.
Imensurável também era seu amor. Ela transbordava amor, generosidade, proteção, cuidado, carinho e orgulho. Orgulho de encher a boca para proferir duas palavras que para ela eram sagradas, "minha neta".
O colégio onde estudei organizava um concurso anual de redção e em alguns anos eu ganhei medalha. Minha vó fazia questão de guardá-las com ela, no mesmo lugar onde guardava suas jóias. De vez em quando, ia lá rever e manuseava aquela corrente de lata com um banho vagabundo dourado com mais carinho e cuidado do que ao mexer em seu colar de esmeraldas.
Quando eu era criança, tinha mania de reclamar para ela quando minha mãe fazia algo que eu julgava injusto. Prontamente ela respondia "Deixa que vou dar educação nela!". E fingia dar uns tapinhas na minha mãe.
Lembro da minha decepção quando amadureci um pouco e notei que aquilo era apenas um teatrinho para me agradar. Delicioso foi quando, já crescida, adulta, a via me apoiando, quando correto, em minhas brigas com minha mãe.
Dona Maria Dora é meu maior explemplo em múltiplos sentidos: por ser a imigrante que tinha nada e conseguiu com seu trabalho alcançar uma boa condição de vida, por ter enfrententado minha bisavó pra se casar com meu avô, por ser a primeira mulher do nosso bairro a tirar carteira de motorista.
Sem ela, fico procurando por exemplos. Até que me dou conta de que já estou bem crescida e não praciso mais disso, sou capaz de ser independente e sei construir o meu caminho.
Ela deixou uma vala gigantesca. Fazem mais de três anos que ela morreu e nós ainda tentamos, meio desajeitados, preencher essa lacuna. E sabemos que nem em três décadas conseguiremos fazê-lo.
O que conforta é achar que ela prossegue entre nós, seja espiritualmente ou por meio de tudo o que ela nos ensinou e continuamos fazendo.
O que conforta é saber que os céus, ou qualquer que seja o lugar para onde vamos, está mais iluminado com sua presença. Certeza absolutíssima que ela chegou por lá, toda risonha, puxando conversa com todo mundo...


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