I write

Eu escrevo pra ganhar dinheiro. Sou assessora de imprensa e uma das tarefas inerentes à minha profissão, é escrever releases. Neles, às vezes, eu minto, atribuindo qualidades aos meus clientes que eles não têm; para convencer jornalistas a publicarem matérias.
Escrever releases talvez seja uma forma de prostituir minha escrita. E isso não me incomoda, ou incomoda pouco. Assim como uma prostituta, relativamente conformada com a vida fácil, sabe diferenciar o sexo com cliente do sexo com amor, eu sei diferenciar minha escrita comercial daquela que vem da minha alma.
Eu continuo mentindo sem causar graves consequências, ao escrever na minha intimidade, criando ficções das quais eu adoraria ter participado.
Escrevo pra falar, na lata, sem rodeios, algumas verdades que tenho dificuldade em admitir.
Cada vez que escrevo, exerço meu imenso egoísmo. Escrevo pra ter encontro, com dia e hora marcada, comigo e mais ninguém. Escrevo o que EU gostaria de ler. Eu escrevo pra poder falar de mim mesma. Até cansar.
Eu escrevo buscando, ao menos, algum elemento em minha vida sobre o qual eu possa exercer pleno controle. Para ter a liberdade de escolher começo, meio e fim. Eu escrevo pra ver finais felizes.
Também pelo prazer que tenho em falar e opinar sobre quase tudo. Assuntos rasos e de profundidades quase abissais, amenidades e seriedades, o cotidiano banal e as excentricidades. Pra comemorar os ganhos e resmungar as perdas. Eu transito entre limões azedos e brigadeiros de colher, com a certeza de que a jornada não é povoada apenas por uns ou só pelos outros.
Por orgulho. Pra esta tarefa não preciso pedir a ajuda de pessoa alguma.
Eu brinco com as palavras pra gozar da minha cara. E dramatizar os meus problemas.
Escrevo para expressar com mais clareza o que tenho dificuldade em transmitir com palavras faladas. Eu escrevo pela necessidade primária de me comunicar com as outras pessoas.
Com isso eu parei há um certo tempo, provavelmente, por covardia. Eu costumava escrever cartas para declarar meu amor, da maneira mais rasgada possível.
Homens que escrevem bonito me seduzem. Talvez, (in)coscientemente, eu escreva para tentar seduzir alguns homens. Porém, eu bem sei que não são muitos os que se interessam por um belo joguete de palavras. Eles preferem um belo par de pernas.
Pra enganar o tempo. Adoro encontrar algo que escreví há anos e ter a sensação, mesmo que por breves segundos, de reviver aquilo que alí foi relatado.
Tenho gosto pela escrita pois me encanta a genialidade das mensagens passadas pelas entrelinhas.
Penso que escrever é exercitar a paciência. Juntar umas palavras às outras nunca me ocorre com fluidez, é costura lentíssima, onde urgências e minha ansiedade não cabem.
Ultrapassar a barreira de um estéril papel em branco não é pra qualquer um e, assim, percebo que escrevo porque sou forte.
Eu escrevo para trasgredir e chocar. Eu escrevo, num gesto de generosidade, pra doar fragmentos de mim a quem estiver a fim de me ler. Eu escrevo pois, até agora, é a forma mais intensa que encontrei de ser genuinamente eu.
Eu escrevo porque gosto de poesia. Não precisa ser poesia clássica, com aquela necessidade engessada de conter verso, ritmo, rima e estrofe. Tenho preferência pela poesia e o encatamento dos dias.
Eu escrevo porque não gosto de meias palavras.



