Passárgada Square

terça-feira, setembro 25, 2007

Retrato em Preto e Branco

Ah, como eu queria voltar a ouvir a voz de gralha e a risada estridente da Jacira, a secretária do meu chefe, da qual eu vivia reclamando...
É desesperador pensar que nunca mais ouvirei Tom Jobim cantando "Querida" e tocando "Insensatez". Nem a voz doce da Bebel Gilberto dizendo "é melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe" pra eu colocar um sorriso no rosto e decidir em três segundos que a escolha certa é ser feliz.
Para uma pessoa extremamente musical, que lembra até da música que estava tocando no carro quando a mãe a levava pro primeiro dia de aula no jardim da infância, perder a audição é quase a morte.
Cadê a graça fútil dos meus dias em ligar para a minha melhor amiga e ficar horas ao telefone de papo furado, especulando sobre quem matou a Taís da novela, fofocando sobre quem separou de quem e comentando a nova coleção de verão da Zara? Eu posso até ligar, eu posso até falar, mas não vou escutar e assim mais da metade da graça se vai.
Gosto muito de falar e, por tabela, gosto de ouvir. Há quem prefira viver sempre num monólogo, mas, pra mim, isso é perversão.
Eu que sempre tinha mania de atropelar os diálogos, impondo minhas idéias aos gritos, agora entendo a importância deles.
Sou quem tudo fala e nada entende. A eterna espectadora de um cinema mudo.
Não é certo, nem natural. O mundo tem vozes, música, notas, barulho e bossa. Eu me contentaria em ouvir um tom perdido, um desafino.
Seria bom ver alguém apontar o dedo pra minha cara, soltar um nervoso "escuta aqui, garota!" e eu realmente pudesse escutar.
E o vendedor de pamonhas de Piracicaba? Nunca mais passou na rua de casa? Passou sim. Fui eu quem não escutei.
Distraída, fui atravessar a rua, o motorista do carro disparou a buzina inutilmente e quase fui atropelada. Por um triz.
Queria também poder sair pra jantar com ele, tomar vinho e ficar toda derretida escutando ele falar sobre suas aspirações, experiências e aventuras. Adoraria escutar os sussurros dele ao pé do meu ouvido que me deixariam arrepiada de fio a pavio.
E quando ele me levasse para o quarto, vibraria ao ouvir ele me chamando de nomes impublicáveis. De biscate pra baixo, bem abaixo.
Como é que se vive sem escutar barulho de mar batendo em pedra? Vou ter que descobrir na marra.
Sabe quando todas as suas amigas são convidadas pra uma festa menos você? Elas não param de falar do assunto e você se sente de fora? É mais ou menos assim que um surdo sente, um constante excluído da festa.
Me deprime achar que o mundo está autorizado a falar mal de mim porque não vou poder ouvir e muito menos me defender.
Queria tanto voltar a ouvir. Uma vida sem audição perde o colorido e o movimento. É retrato em preto e branco.

1 Comments:

Blogger r a c h e l said...

já comentei antes... mas tem mimo no terapia pra você. no meu, não no nosso (rs): http://terapiadapalavra.blogspot.com.

beijo e queijo,

10:11 AM  

Postar um comentário

<< Home